<$BlogRSDUrl$>

Friday, July 30, 2004



"Quando era pequenino, no liceu, obrigavam-nos a uma coisa chamada Mocidade Portuguesa, que incluía farda, marchas, discursos patrióticos e parvoíces correlativas.
 
Chamavam-nos “filiados” e havia um livrinho, com um desenho de um filiado feliz, de braço espetado á nazi, junto ao “filiado”, as palavras “Mandamentos do Bom Filiado”. Dez, como na Bíblia.
 
O Sétimo, dizia: “O bom filiado é aprumado, limpo e pontual”, mas os problemas residiam quase sempre no Primeiro e rezava assim: “O bom filiado educa-se a si próprio por sucessivas vitórias de vontade”, então quedava-me num esforço de compreensão que me esturricava os neurónios, só parecido com o embaraço que o padre da igreja introduzia no meu crânio ao pedir: - Meditemos agora na paixão do Senhor, inclinava-se de olhos fechados, a meditar e eu achava-me o pior dos imbecis porque não era capaz de meditar em nada e, ainda menos, na paixão fosse de quem fosse. Bem me inclinava, bem fechava os olhos e a meditação não vinha. Vinham o sono, aborrecimento, a ideia de uma menina de tranças, mas meditação peva.

O Senhor lá estava na cruz, por trás do padre, todo sanguezinho, todo coroa de espinhos, todo sofrimento, espetadíssimo em pregos, e aquilo que uma pobre criança de seis anos podia partilhar  com Deus era a sua incompreensão e o seu tédio.

Para quê tanto escuro, tanto drama, tanta tristeza, qual a intenção de me impingirem horrores e de me impedirem a alegria e o sonho?

Como podia amar um Deus assim tão paradoxal?! Terrível em castigos, mandando pragas, que juntava a estas características de serial-killer, prantos compulsivos de dor no caso de eu não comer a sopa toda?!

A esta perplexidade a Mocidade Portuguesa achou por bem juntar aquele primeiro mandamento vigoroso e tremendo: : “O bom filiado educa-se a si próprio por sucessivas vitórias de vontade”, dando comigo a tropeçar no educar-me a mim próprio e, mais ainda, nas sucessivas vitórias da vontade. Como deveria fazer para me educar a mim próprio?! Como raios se conseguem sucessivas vitórias da vontade?!

Resolvi começar pelo aprumado, limpo e pontual, que se me afigurou mais fácil. O limpo e pontual com algum esforço conseguia-o, o aprumado encontrei no dicionário, tudo coisas, aliás, em que o bom filiado se encontrava em sintonia com o Senhor, que portanto imaginei logo, de farda, espetando braços nazis.
 
Talvez o Senhor fosse aquele Homem de trinta ou quarenta anos, que mandava na Mocidade Portuguesa, vigiando-nos no recreio do liceu, com olhinhos severos, em sentido, marcial, duro, educado por si próprio, limpo, pontual, aprumadíssimo, com sucessivas vitórias da vontade no activo.

O problema era o meu acne juvenil … bem lá teria de aceitar o acne divino, mas a minha vontade era diante dos filiados, em pelotão perfeitinho confessar bem alto:

Não sou aprumado e pontual;
Não me educo a mim próprio por sucessivas vitórias da vontade
.

Mas não … inclinava a cabeça, de olhos fechados (fingindo uma meditação comprida), de barrete, cinto, e toda aquela tralha preparando-me para marchar no pátio do liceu, com tambor e uma corneta à frente, espetando o braço numa saudação viril, em jeito de filiado feliz, recitando em coro com os outros filiados felizes, os Mandamentos, tão limpos, tão pontuais, tão aprumados, saindo o portão do liceu, afugentando até os pombos municipais que voavam esparvoados, diante da “nossa” Fantoche determinação bélica. Ai que farsa …."


 
(António Lobo Antunes)



This page is powered by Blogger. Isn't yours?