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Tuesday, August 10, 2004



Eu "descolei". Mas a estrada chegou ao fim, e fui obrigada a desconectar a apenas 260 metros.

Naquele momento, percebi que uma nuvem começou a formar-se à minha esquerda. Fui subindo e concentrei-me ao máximo para não perder…

Segui derivando para o nada, alcancei o tecto que estava 700 metros. Ia-me segurando em qualquer coisa que encontrava.A condição melhorou, mas a deriva foi-me levando directamente para a "área proibida".

Fui obrigada a trocar de linha, fazer uma transição com vento de través até a próxima linha de nuvens à minha direita. Acabei por ficar muito baixo, quase sem esperança, a menos de 150 metros do chão. Foi quando decidi apostar tudo num lago que ficava um pouco mais à frente.

Consegui encontrar um "zero a zero" e segui derivando por uns cinco quilómetros até a térmica começar a render, continuei lutando contra a deriva.Por mais “três horas” continuei com uma média muito baixa. As estradas pareciam cada vez mais escassas, até chegar em trechos completamente desertos e inóspitos.

Nesta altura a condição estava redonda, infelizmente, todos os “cloud streets” estavam quase perpendiculares à rota. Até o meio do voo eu conseguia ouvir o resto dos “pilotos”, mas eles não conseguiam ouvir-me ... ou, simplesmente, não me entendiam. Tentei novo contacto, mas inutilmente. Nada, ninguém respondia, ou se respondiam não era o que eu queria ouvir.

Consegui visualizar um parapente um pouco à frente. Não consegui definir a que distancia estava de mim, mas, pela posição passada por ele e pela lógica, não deixara dúvidas de que agora eu estava voando à frente, e estava muito bem posicionada.

O voo começou a enfraquecer e as nuvens a desaparecerem. Até àquele momento o voo tinha sido perfeito, sem incidentes ou sustos. Num raio de 360 graus, não existia diferença nenhuma de relevo ou vegetação: qualquer pessoa tinha exactamente a mesma visão. Era impossível voar sem um GPS para poder detectar o(s) canalha(s) …Enquanto a condição de voo estava forte eu procurava concentrar-me apenas no voo, sem atentar muito para as enormes transições que fazia algumas vezes sem nenhuma estrada por baixo.

Mas como a “condição” estava a chegar ao fim, estava nervosa. Segundo o meu GPS, se eu pousasse nos próximos 80 quilómetros, provavelmente tinha virado lenda, pois não tinha nada nesta região – “nenhuma estrada ou vestígios de civilização” e acima de tudo tinha falhado o meu propósito, o meu compromisso de me manter … independentemente de tudo e de todos.

À medida em que eu entrava no deserto, a minha mente começava a bombardear informações.

Lembrava-me que a minha reserva de água e alimentos era suficiente para ficar, no máximo, um dia no deserto. Que eu estava sem telefone, o meu rádio não funcionava. Eu estava cansada. Mas não desisti, não desisto nunca dos meus propósitos.

Já há muito que raspei a tinta com que me pintaram os sentidos, e quero ser EU PRÓPRIA.



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