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Tuesday, September 14, 2004



Por enquanto, sinto que sigo, porque vejo a costa a passar por mim... Por enquanto, sinto que me movo, pois vejo o rasto branco que deixo no mar... Por enquanto, sinto que vou … com uma vaguíssima noção de para onde, mas o que sei mesmo, como algo sabiamente certo, é que estou a bordo de um navio!

O mar e o céu confundem-se no azul, o do mar mais escuro, o do céu com uma claridade que ofende os olhos. Sinto e não digo a ninguém, sinto como uma mágoa que não se expressa, sinto e não sei dizer que “Amanhã” é um céu de luz que deixei para trás.

O chão onde piso agora parece ainda movediço, tamanha foi a minha adaptação a seu balanço. Já não “vomito”. E isto não é somente uma adaptação ao ir e vir das ondas. Apesar da náusea, respiro fundo, engulo o engulho, porque eu quero ser uma Mulher, quero ser esperta, forte, experiente, quero ser isto tudo, ainda que seja esta deformação de ser, ainda que me deixe enganar …

No entanto sigo, sinto, e não consigo dizer o magro mundo que sou. Perdida neste azul, a tudo estranha... esforço-me para fugir do que sinto e o que sinto quase me expulsa da fuga e me obriga a manter-me... Para onde vou?

Depois de dois dias de viagem, e apesar da furiosa agitação a bordo, piscina, roleta, jogos, música, dança, e brincadeiras, e piadas, e risos, e álcool e exteriorização do vazio aos gritos, agitação a que estendo os olhos compridos, como se desse gozo animal não sentisse a falta, como se esse circo canibal não me atingisse … porque estou no momento farta de tanta palhaçada … por enquanto afundo-me na leitura, e nessa hora apenas vejo um manto de luz, de azul … e a leitura entende-me!

Por enquanto, à noite, o mar é de um negro inquieto e estrelado. E consolo-me: a minha noite é a natureza. Cá no convés, olho as estrelas. Lindas cintilando no céu escuro. Lindas e nuas. Enquanto no salão de festas o riso estoura, enquanto os champanhes estoiram, e jorram, no céu escuro de breu …



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