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Saturday, September 04, 2004

Quantas Vezes ...
 



"Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse amigo de alguém que lhe dissesse para olhar menos o vidro do espelho - onde a prata reflecte o seu umbigo - e olhasse mais vidros transparentes mostrando as coisas além da janela. E mesmo vendo tudo, haveria de ter dúvidas.O amigo do meu filho ensinar-lhe-ia que a beleza e a aparência, embora supervalorizadas, são efémeras.

Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse amigo de uma pessoa sensata, com discernimento das coisas do mundo. Que fosse engraçado para tornar a vida leve, mas que o alertasse sobre os perigos das escolhas.

O amigo do meu filho deveria falar-lhe da importância de seleccionarmos as músicas que ouvimos, os programas que vemos, as ideias que nos vendem.

O amigo do meu filho dir-lhe-ia que o dinheiro não é tão importante, que mais importante é situar-nos entre o bem e o mal, e cada um é responsável pelos heróis escolhidos. Esse amigo do meu filho dir-lhe-ia que a vida no presente cobra-nos as escolhas do passado e, no futuro, nos cobrará as escolhas do presente.

Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse amigo de uma pessoa de personalidade, identidade, e que, embora com defeitos como todas as pessoas, não é cópia e nem quer cópias. Que o amigo do meu filho o incentivasse a ter os seus próprios gostos, o próprio génio, as próprias ideias e que, acima de tudo, o fizesse pensar sobre o mundo e sobre as pessoas, sobre a felicidade e sobre a vida, sobre a família e sobre a ciência.

O amigo do meu filho poderia falar-lhe, por exemplo, de que tudo se resume a tempo, velocidade e distância. Que o tempo é curto, que é preciso acompanhar com serenidade a velocidade da vida que passa como um flash, que é preciso percorrer distâncias para ligar as coisas separadas.

Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse amigo de uma pessoa que lhe mostrasse, principalmente, que as aparências enganam, que nós vivemos cheios de preconceitos, que "o essencial é invisível aos olhos", que nós nos fixamos demais em estereótipos.

Se eu tivesse um filho, gostaria que ele fosse amigo de uma pessoa que mostrasse como ter duas tranças, mesmo sendo homem, não fazem mal a ninguém, que roupas, brincos e tatuagens são apenas acessórios, que o que vale mesmo é cérebro, o coração e a alma.

O amigo do meu filho dir-lhe-ia: "Não esperes nada em troca do que dás. Dar pensando em receber é manipulação, o contrário da cumplicidade". Mostrava-lhe o outro engano comum, confundir cumplicidade com dependência. Se ele dependesse de alguém, se precisasse dessa pessoa para se relacionar com os demais e para suprir as suas necessidades, então ele não poderia ser cúmplice. Cumplicidade exige a capacidade de troca, de dar e de receber, de compreender e de ser compreendido.
O amigo do meu filho dir-lhe-ia que ser parceiro é dar sem cobrar. Dar e cobrar é manipulação. Um caminho curto para a desilusão.
Como não tenho filhos, digo com orgulho, que na verdade as aparências não enganam. Nós é que nos enganamos, simplificando as coisas complexas das pessoas e do mundo.
Vemos tranças nos cabelos e não vemos milhares de fios. E é nos fios invisíveis que está a essência de todas as coisas. Se eu tivesse um filho …"



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