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Friday, October 15, 2004



Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Nos meus olhares fúnebres, carregoA indiferença estúpida de um cego!


A passagem dos séculos assusta-me.
Para onde irá correndo a minha sombra
Nesse cavalo de electricidade?!


Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:- Quem sou?
Para onde vou?
Qual a minhaorigem?


E parece-me um sonho a realidade.


Em vão com o grito e dor No meu peito impresso!
Dos brados meus ouço apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia doida
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que dá de comer a minha carne toda!


É a Morte - esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...- Faminta mulher que, um dia qualquer,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!


Nesta sombria análise das coisas,Corro.
Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino...Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho horrível
Reconheço assombrada o meu Destino!


Surpreendo-me, sozinha, numa cova.
Então meu desvario se renova...Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajes pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!


E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínioEm declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era nada!


Chegou a tua vez, Natureza!Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.


Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!


Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros;
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!


Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrada no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!


A desarrumação da minha IdeiaAumenta.
Com as chagas O medo, O desalento e o desconforto
Paralisam-me os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!


Não! Jesus não morreu! Vive na serra
No ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da árvore uma urna de perfume.


Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos.Desperto.
É tão vazia a minha vida!No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!


Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensanguento a vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.


Meu coração, como um cristal, se quebra;
O termómetro nega minha febre,
Torna-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converto na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!


Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louca?!Daqui por diante não farei mais versos.


E este medo …




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