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Thursday, October 14, 2004



"Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo, dromedário, fogueira de exibição, teorema, corolário, poema de mão em mão, lãzudo, publicitário, malabarista, cabrão.
Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não!
Os que entendem, como eu, as linhas com que me escrevo, reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria, uma coragem serena, em renegar a poesia quando ela nos envenena.
Os que entendem, como eu, a força que tem um verso, reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso.
Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa - mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história - a morte é branda e letal - mas que dizer da memória de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?!
Ah! não me venham dizer que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem por temor ou negação: Demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não! "
Ary dos Santos



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