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Friday, February 25, 2005

CANAL "65"
 



Planeta Terra, ano 200(…). Hoje acordei sobressaltada. Esta noite dormi mal. Dirijo-me instintivamente até a sala a fim de experimentar o novo televisor. Tinha-o comprado no dia anterior e como a entrega fora já feita muito tarde ainda não a tinha experimentado.

Liguei o canal “65”, como habitualmente, para ver as notícias. Ao fazê-lo vejo surgirem no ecrã imagens de terror acompanhadas com de som de violentas explosões e gritos lancinantes. Eram sem dúvida imagens de uma guerra fratricida. Inúmeros carros de combate sitiavam o que devia ser uma posição defensiva do inimigo. Das luzidias peças de artilharia jorrava uma chuva incessante de projécteis produzindo violentas explosões. Do ar soltavam-se bombas de grande potência cuja detonação fazia estremecer o solo vaporizando tudo o que estivesse num perímetro de alguns metros. Pedaços de corpos ensanguentados esvoaçavam pelos ares misturados com a poeira do deserto.

Sinto o corpo ficar enregelado. Seria um filme de terror? Não podia acreditar que alguém imaginasse sequer algo tão aterrorizador. Deixo-me ficar estarrecida lançando um olhar vidrado para o infinito. Quero mexer-me mas não sou capaz e respiro fundo para evitar o sufoco que me aperta o peito.

Consigo finalmente levantar-me, apetece-me ver o sol, respirar ar puro, apagar aquelas imagens de horror. Embora goste de novidades, hoje quero ver coisas normais, pessoas banais, cenas do quotidiano sem qualquer história. Quero ver crianças a brincar no jardim, quero ver as mães na sua azáfama das compras, quero ver os carros passar, então olho para a rua adivinhando um sorriso. Mas o que vejo não é nada normal. As ruas estão desertas e há polícia por todo o lado. "Isto está a ir longe demais", penso para mim mesma.

Visto-me à pressa e vou a correr até ao quiosque comprar o jornal. Pelo caminho noto que quase todas as lojas estão encerradas. Paro junto ao quiosque e passo os olhos pela primeira página dos jornais onde, em letras garrafais, aparece o título "guerra contra o terrorismo" e depois mais em baixo "as nossas forças da paz combatem heroicamente pela liberdade". Continuo a ler o artigo "apesar de alguma resistência por parte dos soldados, as forças da coligação 'liberdade para sempre' já estão às portas da capital que em breve será libertada".
Mais à frente deparo-me com uma figura sinistra com um olhar frio como a morte, disfarçado num sorriso de aço-inoxidável. Tratava-se de uma entrevista. "Respondendo aqueles que achavam que esta guerra era inútil, em breve iremos mostrar as armas de destruição maciça que eles dispunham. Vamos libertar aquele povo. Custe o que custar. Leve o tempo que levar. O mundo já está farto de terrorismo e de ditadores que fazem o que querem sem ouvir os outros, que cometem assassínios em massa".
"Os restantes países que tenham paciência pois muito em breve iremos também libertá-los. Estejam descansados, começamos a por a casa em ordem e agora temos de acabar o serviço."Parei para pensar. O jornal devia estar-se a referir ao conflito que eu tinha visto na televisão.
Estamos afinal numa guerra contra o terrorismo e os ditadores. Fiquei mais descansada por afinal o “meu” país estar envolvido numa luta pela liberdade e pela segurança, por um mundo mais justo e próspero. Mas o alívio que senti durou só breves instantes. A versão que aparecia nos jornais em nada se assemelhava ao horror que vira na televisão.
Desfolhei todo o jornal à procura de imagens de guerra, mas vi apenas fotografias de soldados a sorrirem com crianças ao colo. Estava muito confusa! Quando regressava a casa passo por uma coluna de soldados com fardas imaculadamente limpas a marcharem em direcção ao aeroporto. Populares lançam-lhes flores e gritam "viva a liberdade. Deus vos abençoe, soldados da paz".

As imagens da TV teimavam em não me sair da cabeça. Pergunto a mim mesma, se terei sido a única a tê-las visto. Encontrei o meu vizinho e arrisco perguntar-lhe. "Guerra? Sim, claro que vi. Fomos libertar aquele povo. Coitados, viviam na miséria, mas viste como os nossos soldados os estão a ajudar? Aquilo é mais um acto de caridade que uma guerra. Como gostaria de participar na libertação daquele país. Pena que já esteja reformado."
Fico boquiaberta sem proferir uma palavra. Ele não tinha visto nada. Provavelmente ninguém vira. Ou estaria eu a delirar? Volto a casa e ligo a TV. A mesma destruição e as mesmas explosões sucedendo-se em catadupa. Desligo pois não consigo suportar tal horror. Sento-me no sofá para relaxar um pouco e esquecer. A minha cabeça parece um carrossel.

Porque razão o meu vizinho não vira nada?! Intrigada toco à campainha do lado. Meto conversa e peço para ele sintonizar o canal “65”. Ele assim faz e aparece no ecrã uma imagem de soldados a sorrirem com crianças ao colo e receberem flores da população. "Tem a certeza que é este canal", pergunto. "Absoluta, porque? vê, estamos a libertar aqueles desgraçados. Não é fantástico". Respondo que sim e volto para casa.
Não consigo estar em casa. Numa montra de uma loja de electrodomésticos existem várias televisões sintonizadas no canal “65” onde aparecem as mesmas imagens que tinha visto na casa do meu vizinho. "Devo ser a única capaz de visualizar aquelas imagens de horror." Pensei. "Ou estou mesmo louca ou há qualquer coisa com a minha televisão."

Regresso de novo a casa e verifico as ligações e os dados do aparelho. Tudo parecia normal. Foi então que reparei na factura onde estava escrito o destinatário "Secretário da Informação do Pentágono". As minhas mãos tremeram.

"Meu deus, eles devem ter trocados os aparelhos. Esta deve ser uma televisão especial para descodificar o sinal que mais ninguém consegue ver. Isto não é nenhuma libertação, é um massacre. Mas se o digo ainda me prendem. Melhor ficar calada." Com curiosidade redobrada, liguei o aparelho, mas experimentando outros canais. No canal “66” aparece a personagem sinistra cujo rosto tinha já visto no jornal. A sua imagem faz-me arrepios que me gelam o corpo.

Atónita, deixo descair o meu corpo para trás caindo como um moribundo no sofá. Era noite cerrada quando ouço um forte estrondo. Está alguém a arrombar a porta. Era a polícia, uns 10 ou 15 armados até aos dentes. Fiquei mais descansada. Levantei-me para lhes perguntar o que se passava.

"Alto. Fique onde está e deite-se já no chão. Já". - gritaram."Mas que foi, que fiz eu?!""Cuidado, ela tem qualquer coisa na mão. Tem botões. Pode ser uma arma. Largue já a arma."

Ergo o comando na mão para os acalmar "Isto é apenas um coman…" Várias rajadas de metralhadora ecoaram pela sala. Depois o chefe de polícia entrou, olhou para a televisão que estava na sala, só depois para o cadáver que jazia no soalho segurando o comando de TV.

"Este era sem dúvida um terrorista que roubou o nosso aparelho de televisão. Fizeram um bom serviço. Façam desaparecer o corpo e prendam os vizinhos que viram isto. Ninguém deve saber do que se passou. Um dia vão-nos agradecer por termos com esta acção tornado o nosso país num local mais seguro para se viver."



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