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Tuesday, March 08, 2005



Irritabilidade aparentemente sem motivo...

Dias passam sem nada dizer e o mesmo cenário permanece cravado na minha mente...

Fim de tarde no Inverno e o movimento da maré repete-se incansavelmente e de repente as ondas rebelam-se contra os rochedos da costa e o som estridente parece embalar-me... perco-me entre aquelas ondas assustadoras que me acolhem e me protegem do meu próprio ser, tudo parece tornar-se um pouco mais claro e nítido como se ao estar ausente de minha própria vida fosse o melhor meio de encontrar as respostas para os problemas que vivencio...

Estou entupida de palavras. Entaladas, travadas na garganta. É como um cano roto que me mostro aos outros, vazia, numa ausência total de ser, num registo nulo que me impede de assumir a minha feminilidade…

Vegeto aqui nesta cadeira, neste canto da casa esquecido, como um livro sem história.

É duro pensar, parece que espero a morte sentada, que conto os segundos de cada minuto, os minutos de cada hora e todas as horas do dia, sem que os que moram nesta casa me dêem os bons dias, sem que ninguém me dê um sorriso.

Acham que não sei sorrir de volta. Julgam que estou demasiado cega para conseguir ver o amarelo dos seus dentes. Sou esta cadeira vazia…

Hoje comemora-se... Finjo que me esqueci da data. Finjo que não sei que vou receber flores …
Finjo que não vou à festa. Sem fingir, sei que não há razão para lhe chamarmos festa. Agradeço com indiferença o bouquet feito às três pancadas, com o papel aproveitado de um outro já antigo que já envolveu, com certeza, outras flores, e nem sequer simulo que gostei…

Largo-o com desprezo, como se lhes retribuísse duplamente a lembrança.

Continuo até hoje à espera, aqui queda e triste, sentada nesta cadeira imóvel, a afundar-me nas minhas memórias trágicas como o meu presente de cera, surdo. Afinal comemorar o quê?!



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