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Thursday, March 31, 2005



Tecnicamente estou apaixonada, constrangida a amá-lo por todos os meios ao meu alcance, para mal dos meus pecados, que são muitos.

Se eu fosse só alma podia entrar dentro da pessoa que eu quisesse, mas também há o corpo…

Os cromossomas são como pingos de água do mar. Fazem ferrugem numa alma.

O mundo é a minha ostra.

Antigamente uma alma passava facilmente de pessoa para pessoa, sem se demorar muito. Não havia "máquinas". Não havia debates sobre a ética e o "timing" de desligá-las. Hoje a vida prolonga-se para além do suportável. Uma alma cansa-se.

No meu caso, o meu portador (corpo) está tecnicamente vivo, e isto é arrasante.

Tenho uma tarefa espinhosa enquanto alma, acompanhar-me.

Eu Corpo, durmo cinco, seis horas por noite e eu Alma, fico feita mesa de cabeceira ou interruptor da luz, a olhar para mim.

Acompanho-me vinte e quatro horas por dia. Eu tenho uma vida interessante, mas não há interesse que aguente vinte e quatro horas de vigilância.

É monótono.

A minha história é fácil de contar, mas penosa. No entanto é curiosa, dada a perdição em que vim a cair e à maneira de ser da rapariga que, vamos lá, amo do fundo de mim.

Eu Alma, gosto de conhecer pessoas mas não gosto de pessoas conhecidas. Só me interessa o acto de conhecer.

Eu Corpo, falo com quase toda a gente. Amigos, tenho poucos. Não tenho planos e evito os hábitos.

O que dificulta as coisas, para mim alma. Sou uma boa alma, limitada, mas segura de mim. O que é que isto quer dizer, não sei.

Tenho acessos de lirismo. Sou solidamente espiritual, porque eu sou alma.

Mete-me nojo a materialidade das pessoas - os baços, os pulmões, os movimentos intestinais. O corpo é uma casa temporária porque é rasca - se Deus tivesse feito o mundo com mais jeitinho, teria arranjado seres perfeitos, merecedores de eternidade, isto é, capazes de acompanhar o andamento da Alma. Mas as pessoas são básicas.

As pessoas habituaram-se de tal maneira aos hábitos que se esqueceram que havia outras maneiras de fazer as coisas. Ninguém desobedece. Ninguém ousa. É o século XXI. É o Ocidente. Tudo está realmente resolvido.

Então a minha primeira tarefa, enquanto alma, é acordar-me a mim, para que a possibilidade de amor exista.

Como ainda há gaivotas, e dado os meus poderes de observação, torno-me numa delas. Cheiram mal mas têm um bom ponto de vista e são amadas.

Entro na cidade dos corpos. Num país morto.

Voar é como dormir e sonhar, mas eu sou também alma e não posso dormir, nem sonhar. Quando é que me libertam?!



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