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Thursday, May 05, 2005



A fragilidade da nossa balança de transacções com o exterior é estrutural. Há evidências sobre a perda de competitividade das empresas nacionais. Etc, etc, etc... Como já estamos todos cansados deste diagnóstico, decidimos arranjar um novo culpado: a China.

Como é óbvio, mais facilmente achamos os chineses uns patifes, que exploram mão-de-obra escrava e agridem a ecologia, do que levamos a mão à consciência.

Assim, enquanto estamos a acusar os chineses de "dumping" não nos questionamos sobre o destino dos subsídios às indústrias nacionais, a começar pelos têxteis.

Nem convém recordar que dois terços das transferências financeiras da União Europeia acabaram em consumo. Todos ficámos mais ricos, o que é bom. Mas sem grandes sacrifícios, o que foi mau. Pensávamos que ia ser sempre assim. E foi precisamente na época mais dinâmica da economia mundial, toda a década passada e a primeira metade desta, que Portugal ficou parado.

O medo tomou conta de nós. O medo de Espanha. O medo do Leste. O medo da China. Por isso aplaudimos tudo aquilo que nos protege das ameaças, sem perceber que as atitudes defensivas, além de estúpidas, formam o caminho mais certo para o suicídio.

Os nossos têxteis sofrem com a invasão chinesa. É verdade. É verdade que essa invasão está a acontecer. E é verdade que as consequências estão a ser bastante dolorosas para muita gente.

Mas, enquanto aplaudimos as medidas de protecção, ignoramos convenientemente o que significará a mais que certa vingança do chinês. Que a China é o segundo mercado para onde a Europa mais vende. Que a retoma das nossas economias está muito, mas muito mesmo, dependente do que exportamos para outras regiões.

Retaliar, no comércio internacional, sempre implicou um retrocesso no bem-estar das populações. Os europeus estão a beneficiar muito com o acesso que, finalmente, as suas empresas têm ao descomunal mercado chinês. Esse acesso é o resultado dos compromissos de Pequim, no momento em que estava a aderir à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os investimentos das empresas europeias na China passaram a realizar-se num contexto mais previsível e amigável. A adesão à OMC está a promover a transparência nos mercados, está a abrir sectores até aqui «proibidos» (telecom e seguros) a multinacionais.

Agora, é impossível concorrer com soutiens a 4 cêntimos, pijamas a 40 e calças a 4 euros? É. As cláusulas de salvaguarda não resolvem, aliviam. Há boas intenções naqueles que as defendem, mas de boas intenções está o inferno cheio.
Parece que o que falta, é consciência do preço a pagar por elas.



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