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Wednesday, April 26, 2006




Passaram sete longos anos sem voltar àquela casa, não porque não sentisse vontade … a verdade é que … nem mesmo sabia se tinha aquela vontade de voltar.

Sempre que lá ia, contava os minutos para ir embora, tudo me fazia lembrar o Pai, os portões, o chão, as árvores, aquela imensidão de verde, até aquele céu que me habituei a ver ao longo de muitos e muitos anos … mais de trinta.

Sem ele nada era igual.

Eu e a mãe pensámos algumas vezes, não muitas, ficarmos lá durante 1 dia que fosse, mas não era possível. A sua ausência era mais forte que a nossa vontade em ficar.

Durante quase 1 mês que Kiriacos nos incentivou a recrear alguns momentos na Casa, eu na realidade de inicio não gostei da ideia, imaginava-me lá, mas ... a noite, as noites na casa seriam demasiado angustiantes, para não falar no eventual choque que isso provocasse na Mãe. Procurei demovê-lo daquela ideia, mas não consegui.

Restava-me apenas transmitir aquela ideia à Mãe … e tal como esperava o Sim dela foi … quase uma negação.

Procurou-se “afinar” pormenores que o tempo estraga, esquentador, fogão, gás e passados alguns dias parece que aquela ideia se tornava um pouco mais suportável.

A Mãe estava com os nervos à flor da pele, eu, eu … o palhaço de sempre, tudo estava “Fantástico”, aquela ideia parecia-me “Fantástica”, mas … isto era só o que eu procurava transmitir, ocultando sempre a minha falta de vontade de regressar.

Chegou o dia, tudo estava preparado até ao último pormenor, quando acordei senti um aperto enorme no peito, mas não tinha o direito de o mostrar nem á mãe e muito menos à pessoa que dormia ao meu lado e que tanto amo.

Viajamos até ás “memórias” quase perdidas ao longo de 7 intermináveis anos. Quando vi o “Portão” senti medo, senti uma vontade enorme de regressar a minha casa, mas mais uma vez procurei esconder aqueles sentimentos. No entanto, passado talvez 2 horas, iniciamos eu e a mãe a “nossa” caminhada de memórias, a pouco e pouco aquelas memórias que até esta altura faziam doer pela ausência que se sentia, tornavam-se mais doces mais suportáveis, cada minuto que passava parecia que nascia em mim uma vontade enorme de recrear cada momento vivido, memórias, memórias, memórias …

Aquele fim-de-semana foi talvez o fim-de-semana mais belo que tive ao longo da vida, Eu, a Mãe e Kiriacos, o Homem a quem dei o coração e o responsável por este regresso a “CASA” ao fim de sete intermináveis anos.

Kiriacos é o Homem mais fascinante e surpreendente que alguma vez conheci, Meigo, Doce, Forte/Fraco, Protector, Amigo, Amante, enfim, O MEU HOMEM. Sei que “odeias” a palavra Obrigada, mas amor sou “forçada a dizer-te:

Obrigada por esse céu, que me deste e que se fez azul depois de tanta tempestade.
Obrigada pela tempestade que me fez sonhar e desejar e descobrir o azul do céu.
Obrigada pelo horizonte que depositaste diante dos meus olhos.

Obrigada pelas frestas que me ensinaste a ver e que ainda existem e que me deixam encontrar o céu, saber das nuvens, navegar pela mansidão das Memórias, percorrendo ilhas e pontes, perdendo-me e achando-me em espaços por vezes indefinidos.

Obrigada pela primavera que fizeste acontecer em mim, pelas flores que brotaram na noite e se ofereceram regadas de orvalho na manhã. Obrigada pela manhã que veio luminosa.

Obrigada pela noite que veio banhada pela luz da tua lua. Obrigada pelas tuas estrelas que passeiam nos meus olhos. Obrigada pelos olhos que ainda se deixam salpicar de estrelas.

Obrigada pelo riso, que ainda povoa a minha vida.

Obrigada pelo amor que ainda existe em mim e me faz reviver na possibilidade de entrega. Obrigada pela ternura que a criança ainda sente num beijo meu.

Obrigada pelas saudades que eu tenho, pelo bem-querer que não morreu.

Obrigada pelo meu dia, pela minha noite, pelo meu ontem, pelo meu amanhã.

Obrigada meu amor por povoares a minha vida.



Tuesday, April 11, 2006



Eu quero acreditar que vou olhar este ano como se fosse a primeira vez que 365 dias desfilassem diante dos meus olhos. Ver as pessoas que me cercam com surpresa e espanto, alegre por descobrir que estão ao meu lado, a dividir algo chamado amor, muito falado e pouco entendido.

Quero acreditar que entrarei no primeiro autocarro que passar, sem perguntar em que direcção vai, e saltarei de imediato assim que vir algo que me chame a atenção.

Em cada um destes dias, olharei para tudo e para todos como se fosse a primeira vez – principalmente as pequenas coisas, às quais já estou habituada, e por isso me esqueci da magia que me cerca. As teclas do meu computador, por exemplo, que se movem com uma energia que eu não compreendo. O papel que aparece no monitor, e que há muito tempo não se manifesta de maneira física, embora eu acredite que esteja a escrever numa folha branca, onde é fácil corrigir carregando apenas numa tecla. Ao lado do monitor do computador acumulam-se alguns papéis que não tenho paciência para colocar em ordem, mas se eu achar que escondem novidades, todas estas cartas, post-it, recortes, recibos, ganharão vida própria e terão histórias curiosas – do passado e do futuro – para me contar.

Tantas coisas no mundo, tantos caminhos percorridos, tantas saídas e entradas na minha vida…

Quero acreditar que durante estes dias, tudo aquilo que os meus olhos virem, a minha mão tocar, a minha boca provar, seja diferente agora, embora tenha sido igual por muitos anos. Assim, elas deixarão de ser natureza morta, e passarão a transmitir-me o segredo de estarem comigo por tanto tempo, e manifestarão o milagre do reencontro com emoções que já tinham sido desgastadas pela rotina.

Quero olhar pela primeira vez o sol, se amanhã fizer sol; o tempo nublado, se amanhã estiver nublado. Acima da minha cabeça existe um céu sobre o qual a humanidade inteira, em milhares de anos de observação, já deu uma série de explicações razoáveis. Pois eu esquecerei todas as coisas que aprendi a respeito das estrelas, e elas se transformarão em qualquer coisa em que eu quiser acreditar no momento.

O tempo e a vida foram transformando tudo em algo compreensível, mas eu preciso do mistério, eu preciso da descoberta …

Eu quero encher de novo a minha vida de fantasia e permanecer o que sou e o que gosto de ser, numa constante surpresa para mim mesma.

Este EU, não foi criado nem pelo meu pai nem pela minha mãe, nem pela minha escola, mas por tudo aquilo que vivi até hoje, esqueci de repente, e hoje estou de novo a descobrir…


(Texto adaptado de Paulo Coelho)



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