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Tuesday, April 11, 2006



Eu quero acreditar que vou olhar este ano como se fosse a primeira vez que 365 dias desfilassem diante dos meus olhos. Ver as pessoas que me cercam com surpresa e espanto, alegre por descobrir que estão ao meu lado, a dividir algo chamado amor, muito falado e pouco entendido.

Quero acreditar que entrarei no primeiro autocarro que passar, sem perguntar em que direcção vai, e saltarei de imediato assim que vir algo que me chame a atenção.

Em cada um destes dias, olharei para tudo e para todos como se fosse a primeira vez – principalmente as pequenas coisas, às quais já estou habituada, e por isso me esqueci da magia que me cerca. As teclas do meu computador, por exemplo, que se movem com uma energia que eu não compreendo. O papel que aparece no monitor, e que há muito tempo não se manifesta de maneira física, embora eu acredite que esteja a escrever numa folha branca, onde é fácil corrigir carregando apenas numa tecla. Ao lado do monitor do computador acumulam-se alguns papéis que não tenho paciência para colocar em ordem, mas se eu achar que escondem novidades, todas estas cartas, post-it, recortes, recibos, ganharão vida própria e terão histórias curiosas – do passado e do futuro – para me contar.

Tantas coisas no mundo, tantos caminhos percorridos, tantas saídas e entradas na minha vida…

Quero acreditar que durante estes dias, tudo aquilo que os meus olhos virem, a minha mão tocar, a minha boca provar, seja diferente agora, embora tenha sido igual por muitos anos. Assim, elas deixarão de ser natureza morta, e passarão a transmitir-me o segredo de estarem comigo por tanto tempo, e manifestarão o milagre do reencontro com emoções que já tinham sido desgastadas pela rotina.

Quero olhar pela primeira vez o sol, se amanhã fizer sol; o tempo nublado, se amanhã estiver nublado. Acima da minha cabeça existe um céu sobre o qual a humanidade inteira, em milhares de anos de observação, já deu uma série de explicações razoáveis. Pois eu esquecerei todas as coisas que aprendi a respeito das estrelas, e elas se transformarão em qualquer coisa em que eu quiser acreditar no momento.

O tempo e a vida foram transformando tudo em algo compreensível, mas eu preciso do mistério, eu preciso da descoberta …

Eu quero encher de novo a minha vida de fantasia e permanecer o que sou e o que gosto de ser, numa constante surpresa para mim mesma.

Este EU, não foi criado nem pelo meu pai nem pela minha mãe, nem pela minha escola, mas por tudo aquilo que vivi até hoje, esqueci de repente, e hoje estou de novo a descobrir…


(Texto adaptado de Paulo Coelho)



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